Hoje estava na sala dos médicos quando vejo um médico Espanhol lá do serviço desligar o telefone bruscamente, depois de uma conversa com um colega médico Português de outro serviço. Ele não estava nitidamente satisfeito com o desfecho da conversa, pois não parava de pragejar “coño”, “hoder” e outros termos “coloridos” fo jargão Portunholesco. Ele depois vira-se para mim, que era a única pessoa para além dele na sala, e diz-me:
-“Sabes qual é o problema deste país? É que 80% dos médicos não querem trabalhar!” Depois de alguns minutos de reflexão sociológica conjunta, não resisti a perguntar-lhe o que é que ele realmente detestava em Portugal.
-“São as desigualdades sociais. Em Espanha não te deparas com uma velhota que só não recebe assistência médica porque não tem dinheiro para pagar o táxi para o hospital. E depois aqui em Lisboa vês mais carros de luxo do que em Madrid.”
Pouco depois começou a tecer considerações acerca das (más) condições dos hospitais Portugueses. “Santa Maria parece um hospital Espanhol do século XIX. Em Espanha, os hospitais não têm nada a ver”.
Enfim. Então é assim. Relativamente às assimetrias sociais, não é preciso ter um doutoramento em economia para nos apercebermos de que o nosso nível de vida está a diminuir, pois Portugal já não converge com a União Europeia há 5 ou 6 anos, aliás diverge. Por outro lado, muitos de nós certamente que temos consciência que as condições dos hospitais Portugueses deixam muito a desejar, e que muitos serviços do HSM, o maior hospital do país, não são dignos de um país da União Europeia.
No entanto, para alguém que é imigrante, e que por isso está numa posição desfavorável, não é de bom tom criticar o país de acolhimento, que lhe paga o ordenadinho no final do mês. Não por mim, que até empatizei com ele, mas um dia ele pode ter o azar de dizer isto a alguém que não vai achar muita piada, e que até pode ser o seu superior, e consequentemente arranjar sarilhos. Bem sei que deve ser preciso a um Espanhol engolir o orgulho para bater à porta do vizinho pobre a pedir emprego, mas a verdade é que apesar da pujança Espanhola e do seu invejável desenvolvimento que tornou Espanha um dos países mais prósperos da Europa (que já nada tem a ver com Portugal, a todos os níveis), centenas de nuestros hermanos continuam a atravessar a fronteira para terem a oportunidade de aplicar os conhecimentos que adquiraram nas faculdades de medicina e enfermagem. Nunca é de bom tom morder a mão que nos alimenta, por muito injusta que seja a nossa situação. Mas o mais triste é que pouco a pouco a invasão Espanhola começa a assumir moldes algo preocupantes. É que já há serviços, como aquele onde eu estou, onde os Espanhóis já assumem cargos de chefia, e mandam nos médicos Portugueses. Eu não sou contra a vinda de médicos Espanhóis, Moldavos ou Liberianos. Apenas gosto do meu país, mas tenho pena que o meu país, em vez de 10 bons estádios de futebol, não tenha bons hospitais em que os médicos se sintam bem, boas universidades, para não falar de escolas em condições, e por aí adiante. Para que pudéssemos ser uma referência que os outros países invejassem, em vez de sermos constantemente a ovelha negra da família. É que melhores condições de trabalho também aumentam os níveis de motivação de quem lá trabalha.