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Saturday, July 16, 2005

Um problema de mentalidade

No outro dia recebi um email de uma amiga Checa, que esteve na minha Faculdade a fazer Erasmus há uns anos. Ela dizia-me que tinha acabado o curso (já é médica), e estava agora durante as férias de verão a trabalhar num escritório como secretária para amealhar umas massas. Eu fiquei embasbacado! Quantos recém-licenciados em medicina em Portugal é que eram capazes de fazer isto? Acho que nenhuma empresa os aceitava! Eu próprio, quando estava no 5º ano do curso, fui rejeitado por todas as empresas de trabalho temporário, por acharem que as empresas não vão querer alguém que, digamos, tem potencial para ser demasiado "reivindicativo".
Mas não precisamos de chegar tão longe. O problema é que, a maioria dos recém-licenciados em medicina Portugueses (onde eu me vou incluir daqui a duas semanas) não estariam dispostos a pôr em causa o seu estatuto, agora que são doutores a sério, para ir trabalhar em coisas que porventura "não lhes fica bem". Mas isto é um problema de mentalidade, quer dos médicos, quer dos próprios empregadores, algo tacanha na minha opinião. E isto porque os recém-licenciados em medicina estão parados de Agosto a Janeiro (altura em que começam a trabalhar como internos), sem ganhar um tostão. Qual é o problema em ganhar umas massas para abater nas despesas dos pais? Aparentemente, somente nós próprios e o resto da sociedade...

13 Comments:

  • A minha prima nessa altura foi fazer um estágio para a suíça. O problema é que não voltou LOL Lá se foi a riqueza do país! ;)

    By Blogger Sara, at 5:06 AM  

  • mas é médica? E trabalha agora na Suiça como médica? Bem, se o meu francês fosse alguma coisa de jeito, apesar da Suiça não ser o meu país de eleição, até nem me importava!

    By Blogger Tiago, at 9:13 AM  

  • Sim. Acabou no ano passado (no ICBAS) e apesar de a investigação não ser a área favorita arranjou um estágio de investigação na suíça. Praí em out/nov, o "chefe" disse-lhe: "temos duas vagas para doutoramento e gostavamos muito que ficasses com ela". Como oportunidades destas não aparecem todos os dias, aceitou. :) O internato fica para depois mas duvido muito que ela volte porque não acho que ela seja uma pessoa que consiga viver neste país.
    Já agora, é na parte alemã. Em zurique. Precisas mas é de falar alemão (entre alemão e francês venha o diabo e escolha). Era muito melhor se fosse inglês ;)

    By Blogger Sara, at 1:15 PM  

  • Eu ainda não o disse no blogue, mas eu também estou prestes a embarcar para Londres, para fazer uma coisa "alternativa", dentro da medicina, claro, mas que não envolve contacto com doentes!
    Mas essa cena do doutoramento é muito fixe! Ainda por cima em Zurique! Sim, dificilmente acho que nessa situação uma pessoa queira voltar a Portugal. E vamos lá ver, cá em portugal temos a mentalidade de que todos temos de ser clínicos! Mas acho mais interessante cada um construir o seu caminho, aquele que mais realização profissional trará! Acho que é contra-producente ir para neurocirurgia só porque dá prestígio, se depois somos uns infelizes... Para uns, a vida depois do curso pode passar por trabalhar como clínico, para outros numa empresa farmacêutica, para outros, como a tua prima, ser investigadora, e para outros, se calhar ir para África em missões. E acredita, eu conheço casos destes! Um curso de medicina pode ser um passaporte para muitas oportunidades para além da clássica medicina hospitalar. É só sabermos procurar! E o mais engraçado é que podemos acabar a fazer uma coisa que nunca imaginámos! Olha, como a tua prima!
    Mas diz-me uma coisa, a tua prima arranjou o tal estágio para "fugir" ao internato, ou foi por mero acaso?

    By Blogger Tiago, at 2:33 PM  

  • Ela arranjou o estágio para se manter ocupada até começar o internato. Começava em Agosto e acabava em dezembro (mesmo antes do natal). Em Janeiro estaria aqui para começar o internato.
    Só que ela, pelos vistos, portou-se muito bem naqueles meses e eles fizeram-lhe a oferta do doutoramento. Ela até veio cá de propósito na altura para saber se podia fazer o internato mais tarde por isso não me parece que ela quisesse fugir. Como ainda não falei muito do assunto com ela (temos sempre coisas mais interessantes para falar do que de "trabalho") não sei se ela quer continuar a trabalhar em investigação ou se está só a fazer isto por motivos de carreira.
    Sempre me irritou muito essa mentalidade de que quem vai para medicina tem de ser médico. Por acaso, neste momento é o que eu quero mesmo (não significa que não queira complementar a actividade clínica com outras coisas) mas as pessoas não percebem que todos precisos e necessários. Medicina é um curso como qualquer outro. Cada um escolhe a saída que quer.
    Bem, tu... Ou muito me engano ou és o portuguÊs que escreve no studentBMJ, certo??? É que eu costumo de ler na net e aparece lá às vezes um Tiago V. E que uma vez até falou de ter perdido um ano e dizia lá o "local de proveniência" (FML) Isso em londres deve ser algo relacionado...

    By Blogger Sara, at 4:26 PM  

  • estou surpreendido como já conheces a studentBMJ. Ainda não é muito conhecida fora do Reino Unido, e muito menos nos nos anos básicos. E é verdade, sou eu mesmo! Que perspicácia! :) Como é que adivinhaste? Mas agora vou para lá dirigi-la!Tu tens muito jeito para escrever, não queres escrever alguma cena para lá? Ainda por cima és paga, e bem paga!

    By Blogger Tiago, at 8:10 PM  

  • só mais uma coisa... fiquei curioso, até porque isso tem extrema importância para o meu trabalho. Como é que ouviste falar da studentBMJ?

    By Blogger Tiago, at 8:12 PM  

  • Acho que foi no ano passado (melhor dizendo, há quase dois anos) quando andei a fazer a candidatura para ir para o Reino Unido (a tal história de quase ter ido para Glasgow: tinha a oferta, tinha as notas e acabei por não ir). Como vasculhei imensa coisa para ter o máximo de informação possível fui parar à studentBMJ, por isso já a lia quando andava no secundário :) Provavelmente deve ter sido a partir de um site britânico.
    Comecei a pensar que devias ser tu porque disseste no meu blog que perdeste um ano e na studentBMJ escreveste um pequeno texto sobre a forma como os teus antigos colegas te viam agora. Para além de que já tinhas falado aqui uma vez do studentBMJ (quando foste a uma entrevista). Como não deve haver muitos Tiagos no BMJ... :)
    Se eu me lembrar de algo interessante para escrever, aviso-te :)

    By Blogger Sara, at 4:34 AM  

  • tchiii, parece que tenho leitores atentos, LOL! :)
    Estou estupefacto!
    Bem, espero que não estejas arrependida de não teres ido para a Escócia. Se queres que te diga, acho que a diferença não estaria tanto ao nível do curso em si (que provavelmente seria um pouco melhor), mas mais ao nível das oportunidades profissionais depois do curso, que são incomensuravelmente superiores lá, não só dentro da medicina clínica, como fora dela. Acho que na Europa não há assim tanta discrepância entre os cursos de medicina, tirando uma ou outra excepção. Claro que preferia ter tirado o curso noutro país Europeu, preferencialmente do Norte da Europa (Países nórdicos, benelux, Reino Unido, Alemanha) ou mesmo Espanha, mas agora sei que não teria sido assim tão "melhor" quanto eu estaria à partida à espera, e ainda por cima na nossa FML o 6º ano é profissionalizante, o que não acontece na maioria das outras faculdades europeias, ou seja, tu até acabas por ter um melhor "andamento" e preparação para a prática clínica cá, apesar de tudo!
    Se eu pudesse ter escolhido onde tirar o curso, não teria tido dúvidas: Estados Unidos. Eles estão anos à frente de todos os outros, e a formação deles é de excelência.
    Bem, quando um dia tiveres alguma ideia, contacta-me! Em breve estará no site da studentBMJ o meu endereço de email. Eu não gosto de ser considerado "o Português" que escreve para a studentBMJ, pois gostava que houvesse mais.
    Acredita, bem tenho tentado, mas até agora em vão...

    By Blogger Tiago, at 5:34 AM  

  • Até nem estou arrependida porque apesar de todos os defeitos que a FML tem, o currículo até é bastante equilibrado (especialmente quando comparado com outras faculdades de medicina em portugal). Não inclinam os estudantes logo à partida nem para uma vertente nem para outra.
    Era mesmo pelas saídas depois e pela experiência de vida que daí poderia advir.
    Claro que os EUA são extraordinários mas também é muito mais complicado conseguir entrar devido às qualificações portuguesas. Só mesmo para quem andou em escolas internacionais. Para além das propinas que são de doidos.
    Pode ser que isso do "português" do BMJ mude :P

    By Blogger Sara, at 6:58 AM  

  • Puxa Tiago começas a ser famoso :P(qto mais n seja na FML) qdo uma aluna do 1º ano já leu artigos teus... :)
    Mas a sério é bom por 2 motivos:
    1º) pq quer dizer que o pessoal da FML começa a ler artigos e revistas médicas logo dde cedo e 2º) pq está atento ao mundo e compreende que este é mto mais do que a faculdade ou o HSM

    Bem em relação a este post eu queria dar-te o meu exemplo... como sabes estou a fazer disciplinas e estou um pouco indecisa em relação ao meu futuro profissional... neste mmto tenho mais dúvidas do que certezas... enfim... mas entre viagens que fiz este ano ao estrangeiro quis arranjar um part-time para ter alguma independência financeira ... bom, digo-te uma coisa, (e a quem ler este comentário e quiser arranjar um emprego temporário fora da área médica em si!) mais vale dizer que temos o 12º ano completo, do que dizer que estudamos medicina e, pecado dos pecados estamos no 5º ano, e não sabemos se queremos exercer medicina... parece que dissemos uma heresia ou cometemos um pecado capital... olharam para mim como se fosse uma ET, perguntaram se sabia a que lugar é k estava a concorrer - dahhhh!!!, perguntaram se sabia qual era a remuneração, e no fim disseram que tinha de ir para casa reflectir pq eu deveria ter apanhado sol a mais durante a minha estada em cabo verde e rejeitaram-me por ter qualificações a mais... sem comentários... pode ser que a maioria dos nossos colegas tenha medo de por a sua figura e o seu futuro prestígio em causa ao arranjarem um emprego fora da área da saúde e, principalmente, um emprego em que as qualificações exigidas são inferiores às que possuímos.. mas tb há um preconceito enorme na sociedade em que vivemos... põem-nos num pedestal como se fossemos de outro mundo, enfim...
    jinhos
    (concorri para assistente de consultório em part-time em que o único requisito era ter boa apresentação - o sr. da empresa de trabalho temporário disse-me que eu era a melhor candidata, fui rejeitada na entrevista com os potenciais empregadores!)

    By Anonymous joaninha, at 3:30 AM  

  • Pois é, Joaninha, essa tua experiência de facto diz muito. Eu também já passei por isso... Eu não gosto de entrar naquela do "lá fora é assim e assado...", mas no Reino Unido, os consultórios médicos põem anúncios para recrutar estudantes de medicina para trabalhar como secretárias e afins, porque eles apercebem-se que são pessoas que estão numa fase da sua vida em que precisam de massa, e que são das pessoas mais bem colocadas para o fazer.
    De certeza que não te rejeitaram pela apresentação ;)
    Mas é o país que temos..., e apesar de cada vez mais haver mais oportunidades, continua a ser muito difícil a um estudante que se preze arranjar um emprego em part-time, pois não temos essa cultura.

    Quanto à malta do 1º ano, pois, já são outra estirpe, se bem que suspeito que a Sara é uma caloira (prestes a ser ex-caloira) "muito à frente"! :)

    By Blogger Tiago, at 8:02 AM  

  • Quanto à indecisão da carreira, bem vinda ao clube! :)
    Mas acho que primeiro é importante acabar o curso, depois logo se vê. Até porque a medicina clínica não é só a dura medicina hospitalar, há a clínica geral, saúde pública, clínica geral, saúde internacional; o que acontece é que há um viés na nossa formação muito pendente para o lado da medicina hospitalar.
    O que nem toda a gente sabe é que o curso de medicina, como disse a Sara e muito bem, é um curso como os outros, e por isso, é mais uma licença para entrares no mundo do trabalho do que outra coisa; e por isso, nada te impede de vires a trabalhar numa consultora, na indústria farmacêutica, ou, como eu daqui a uma semana, numa publicação médica (ainda que só por um ano). O problema é que nós não chegamos a ter a oportunidade de explorar estas carreiras mais alternativas! Por isso, olha, vai "explorando" as tuas possibilidades!

    By Blogger Tiago, at 8:13 AM  

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